#6 Onde moram as alegrias dos adultos mais velhos?


Um dos maiores danos colaterais do contexto que vivenciamos é as mazelas na saúde mental, transversal a jovens, adultos e adultos mais velhos (designação adotada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, no doc. “Linhas de Orientação para a Prática Profissional OPP”, ao invés de idoso ou sénior). Confrontamo-nos com o aumento de sintomatologia de depressão, depressividade e ansiedade. Em qualquer das idades esta sintomatologia pode ser dramática, pelas consequências que traz na mente e na vida de quem as sente. Porque me parece um tema urgente, falemos aqui daqueles que por norma da vida já não tinham ocupação laboral antes da pandemia e que, hoje, fruto dos tempos, estão ainda mais isolados e sem grandes afazeres.

Desde há um tempo até… ao início da pandemia, tínhamos como foco estimular a atividade na pessoa mais velha. Mantê-la ativa o mais possível, dentro das suas caraterísticas pessoais e interesses sociais e de lazer. Isso implicava a integração em atividades coletivas, ou, pelo menos, dar a sua caminhada no início ou final do dia. Permitia mobilidade e interação social, sobretudo em contextos rurais assumiria a sua importância, pelo contacto entre as pessoas das suas gerações.

Tudo se reverteu e muito se silenciou. Onde víamos pequenos grupos de adultos mais velhos, hoje vemos apenas os locais vazios, onde os víamos a caminhar, hoje vemos imagens sem movimento. Fechados nas suas casas, habitam com o medo que lhes entra sala adentro através da TV. Ouvem falar dos que, entretanto, partiram, e onde antes havia pensamentos de querer fazer ainda algo mais, apenas existe o pensamento de “mais um dia que passa”. E não parece haver, para estes adultos, a expetativa do que farão quando isto passar, legitimamente, não sabem como ocupar o seu tempo, para que finalidade e com que perspetivas.

Não é preciso estar-se deprimido para não se vislumbrar grandes ambições na vida numa idade em que tanto já se fez. Às vezes, é apenas um facto. No entanto, a vida serve-lhes ainda e há quem os ame e os queira por perto. Quem gostaria muito de os poder voltar a abraçar, sem máscaras e quinhentos cuidados. E quem ama aquele pai, mãe, avô, avó, sente a impotência de não poder dizer “está tudo bem”. Persistem danos na mente e na mobilidade destes adultos, e acrescem-se os danos sentidos pelos seus familiares, pela preocupação e angústia que a consciência da situação lhes traz. Muitos questionam o que fazer: não há respostas mágicas, mas o afeto traz sempre magia consigo, mesmo quando parece não resultar. Levar afeto, motivar a ter mobilidade e perceber de que forma isso pode acontecer.

Em consulta de psicologia, adultos mais velhos choram porque aguardam dia após dia a chamada dos seus filhos e netos, a qual chega uma ou outra vez… ou nunca. Costumava ouvir estas angústias em contexto de institucionalização, hoje aumentam nos adultos mais velhos que habitam nas suas casas. Como se entende que filhos e netos não tenham dois minutos, que seja, para ligar aos seus avós ou pais? Custa talvez ouvir o mesmo queixume… será isso? Pode ser que custe, mas qual o valor da alegria que tem a pessoa que, isolada em sua casa, passa dias e dias sem ouvir os que ama? Conseguiremos nós colocar-nos no seu lugar e perceber? Ver pelos olhos do outro. Ou teremos vidas de tal forma preenchidas e de tal forma vazias de afetos? Não esqueçamos: a escolha dos nossos comportamentos é sempre da nossa responsabilidade.


Dra Anabela Vitorino Costa



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