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#18 Interessa a quem?



Há (mais) um elefante no meio da sala deste país que a poucos parece interessar ver. É sabido, pelas estatísticas e pelo comportamento visível entre nós, que os problemas de saúde mental e psicológica estão a aumentar, em todas as idades, abrangendo as várias áreas profissionais. Não é um problema de alguns, nem diferenciado por qualquer fator (social, cultural, académico). Qualquer pessoa está suscetível. Nos países desenvolvidos as doenças do foro mental representam 23% das doenças, sendo o as perturbações por depressão a primeira causa. Portugal, por sua vez, representa o segundo país da Europa com a prevalência de doenças psiquiátricas mais elevada, sendo que mais de um quinto dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica (22,9%).

Muitas das pessoas afetadas estão em idade laboral e integradas em empresas. Quando um funcionário adoece do foro de saúde mental, deixando de ser produtivo, quais são os possíveis cenários para si e para o empregador? Deve este manter o colaborador? De que forma estão as empresas e os funcionários salvaguardados nestas situações?

Assisto a empresas que facilitam o apoio psicológico aos funcionários, e estes não entendem nem estimam o investimento. Da mesma forma, assisto a situações de desinvestimento nesta área por parte das empresas, embora muitas delas se manifestem solidárias com o capital humano, nos seus valores e princípios.

Ainda, assisto a situações de funcionários que, estando doentes psicologicamente, de forma crónica, e claramente inaptos para as funções profissionais e diárias que exercem, veem renunciadas baixas médicas e pedidos de reformas antecipadas. Se olharmos para as situações de empresários e profissionais liberais, em que a sua empresa e retorno financeiro são eles próprios, a situação é ainda mais desprovida de suporte, caso lhes suceda uma situação de doença mental.

A ver: a doença mental pode, e muitas vezes é, altamente incapacitante. A pessoa deixa de ter discernimento, clareza, capacidade de memória, capacidade de processamento de informação, sentido de existência. Qual é a percentagem de produtividade possível nestas situações? Pode-se encontrar solução atribuindo-lhe outras tarefas profissionais: sim e não. Depende da estrutura organizacional em que está inserido, depende da própria capacidade que a pessoa apresenta. Caso seja um profissional liberal, que trabalha por sua conta, na sua área profissional – no que sabe fazer-, à partida todas as tarefas estarão interligadas e dependentes de si, deixando de estar apto para exercer a sua profissão. Ponto.

Não acredito num Estado parental nem em empresas maternais. Até porque se assim fosse, deparar-nos-íamos com um pai tirano. E as empresas, devendo-lhes assistir os princípios de bem-estar e acolhimento para os funcionários, não me parece que devam ser os colos afetivos. Acredito, sim, muito, no poder individual de cada pessoa. Acredito na capacidade de se reestruturar. Mas também acredito que para repor este poder “às” pessoas seria preciso perceber que: 1) cada pessoa tem capacidade, uns não ditam o que é melhor para os outros; 2) a doença mental é uma realidade, influenciando os vários fatores de produtividade; 3) ninguém é uma ilha, e são necessários recursos que salvaguardem uns e outros, a economia e o bem-estar. Não dissocio um do outro, pois prosperidade implica bem-estar a todos os níveis.

Não me parece que existam de momento respostas para este tema, nem o vejo realmente debatido na sua legitimidade. Entre questões económicas, sociais e morais que vivenciamos, esta é como o estore danificado em casa: não permite a entrada de luz, incomoda, mas vai ficando por resolver.



 

Dra. Anabela Vitorino Costa

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