# 12 «Tenho que decidir o meu futuro»

Não. Não tens. Se “tiveres que” alguma coisa, é que estar verdadeiramente no teu presente. A única coisa que a vida te pede é que estejas nela, em presença. E por presença, entenda-se, alegria. Estares na vida, a desfrutar de forma responsável (pelo teu bem estar, liberdade e respeito por ti e pelos outros). Feliz. Pelas escolhas que fazes. Alegre na forma como te relacionas e amplias o teu conhecimento sobre quem és, sobre o teu potencial e talentos.

É a isto que chamo de confiança, a tão apelidada auto-confiança.

De repente, talvez na última década, coincidente com a forte crise económica e estrutural sentida, pela maioria de nós, os jovens passaram a expressar mais preocupação e pressão pelas escolhas do seu futuro. Oiço-os dizer “não posso falhar no curso que escolher”, “tenho que escolher bem a profissão”, “tenho que ter as notas para entrar no curso bem remunerado”… Se conseguíssemos, agora, olhar para estas frases em perspetiva, conseguiríamos lamentar o que andamos a fazer, enquanto sociedade, à mente destes jovens. É ambíguo e quase ridículo. A maioria dos adultos passou por autênticos tornados profissionais e /ou pessoais: ruturas conjugais e familiares, perdas, mudanças de emprego, despedimentos, insolvências… a maioria dos que passou por isso ainda assim não compreendeu que nessas mudanças poderia encontrar o que realmente poderá ser viver com propósito e realização. A maioria voltou a repetir padrões, a viver da mesma forma, agarrada ao medo de perder. E fê-lo precisamente por isso: por medo, porque a vida lhe é difícil.

E é isto que os jovens retêm. Os mesmos padrões. Os mesmos medos. Sendo que muitos dos adultos que lhes dizem que têm que saber escolher, não se apercebem dos seus próprios medos e crenças ou, apercebendo-se, projetam nos outros aquilo que não querem ver.

E, quem explica a estes jovens que o importante é que aprendam a reconhecer o que os apaixona, que precisam viver experiências culturais, desportivas, comunitárias, espirituais, o que seja, para se descobrirem nas suas características de personalidade, na forma como olham o mundo, a analisar diferentes perspetivas, a escutar opiniões diversificadas, a argumentar fora do seu foco egoico? Que aprendam a colocar as suas capacidades ao serviço dos outros, porque todos prestamos serviços para outros.

Quem explica a estes jovens que a vida não funciona no futuro, que o caminho não é certo e que a chave é viver seguro na insegurança, que assim é a vida? Quem, com calma, explica a estes jovens que também os adultos, que os guiam, estão inseguros e que todos os dias têm que fazer escolhas, melhores ou piores, e a vida segue? Quem lhes diz que a vida não é um jogo de computador em que o que importa é passar etapas e chegar rapidamente à próxima novidade? Calma.

Tu, jovem, que acabas por te sentir vazio de tão perdido num mundo que não te é familiar, é importante que saibas que a tua presença aqui é valiosa. Tu importas. Não tanto o que tu vais fazer. Mas quem és. Porque aquilo que “um dia farás” só tem valor se colocares nisso quem realmente és. Aprecia a viagem. Aprecia a aprendizagem, tudo o que foste absorvendo. Observa melhor os teus pais, os teus professores, as tuas referências, observa, mas sem a tentativa do julgamento, observa apenas para que vejas o que queres repetir e o que não queres. Sabendo que cada um faz o melhor que consegue para o nível de consciência em que está. Olha nos olhos de quem te transmite conhecimento e percebe se essas pessoas são felizes no que fazem. Aí está a tua referência. Viver uma vida bem vivida, na alegria, não na fila apressada de se ganhar algo que nem se sabe o quê. Mas sim na contemplação de seres a cada dia a melhor versão de ti mesmo. Precisamos muito de ti. Precisamos muito que cries essa rutura no modo de pensar e de agir. Aproveita o momento e faz-nos esse favor, enquanto humanidade.


 

Dra Anabela Vitorino Costa

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