#5 No trapézio da parentalidade


Há uma geração de filhos, agora pais, que, não tendo grandes demostrações de afeto, teve pais que davam espaço para as escolhas de vida. Filhos que não sendo educados (na sua maioria) com autoritarismo e agressividade, bastava-lhes uma determinada firmeza de pai e um olhar de mãe para compreenderem os seus limites. Os pais dos pais não tinham livros a ensinar ser-se pai, faziam-no no melhor que conseguiam para o seu nível de consciência. Com a disponibilidade que tinham. Estes filhos, agora pais, trazem consigo os princípios, da liberdade e do respeito pelas escolhas. Querem ir mais além porque consideram a inteligência emocional dos seus filhos, querem que estes cresçam sem grandes mazelas, sem grandes nãos da vida. Querem-lhes bem, com certeza, tal como a maioria deles teve dos seus pais – quererem-lhes bem.

Contudo, não basta querer bem. A era digital, a multiplicidade de estímulos, as mudanças de sistemas de família, a oscilação da vida profissional, as rotinas de vida que ultrapassaram as velocidades de outrora, contrastantes com as novas teorias da parentalidade, trazem consigo a ambiguidade de sentimentos que estes pais se confrontam. Caem por terra as máximas de “nunca farei isso” ou “sempre estarei lá”. Vai fazer sim, e às vezes não vai lá estar.

A consciência emocional abriu caminho para uma forma de olhar a parentalidade numa perspetiva dos sentimentos, de uma parentalidade positiva. E que bom que compreendemos a importância que a expressão emocional tem em tudo na vida, na forma como nos empreendemos em algo, nos relacionamos e nos recuperamos de adversidades. Mas se apenas bastasse essa literacia, teríamos crianças e jovens bem estruturados, confiantes e resilientes. Acontece que não basta aos pais essa instrução, é preciso lembrarem-se da grande preciosidade em ser-se pai/mãe: SER -se.

A consciência emocional não está nas estratégias utilizadas com os filhos, está no significado que as mesmas têm para os pais que as aplicam. O significado que dão ao insucesso dos filhos, as memórias projetadas agora nos filhos. Protegem-se os filhos, muitas vezes, por projeções de medos e inseguranças dos próprios pais. Fazer escolhas pelos jovens filhos, sem os ajudar a pensar sobre as mesmas, é o mesmo que transmitir-lhes que não têm capacidade de decisão. E talvez não tenham. E então? Em algum momento irão aprender a escutar-se e a perceber o caminho que querem fazer. É preciso a expressão do afeto, sem dúvida, mas é preciso também onde ele encaixe. E o afeto combina bem com limite e firmeza. Tudo a gosto e q.b. Porque na maravilha de se ser pai daquele filho existe a unicidade -de cada um- e a beleza de se permitir intuir o que fazer naquele momento, em que é determinante uma atitude. Uma ação. Às vezes não a que traz mais encanto, mas a que trará maior benefício, que ajudará a criança a ter um chão fértil para se expandir e expressar na vida e no mundo.

É certo que cada vez mais pais despertam para o olhar para si mesmos, porque entenderam que cuidando dos seus fantasmas e colocando em prática os seus dons e sonhos, ajudam muito mais os seus filhos. Pelo exemplo. Tornam-se finalmente adultos que assumem a responsabilidade e a fragilidade de errar, também, enquanto pais. Porque assim é, ser-se pai, um treino diário, numa tentativa de equilíbrio entre a doçura e a firmeza.


Dra Anabela Vitorino Costa



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